“Situação difícil” da liberdade de imprensa e consequências na qualidade do jornalismo
O indicador económico da liberdade de imprensa sofreu uma baixa sem precedentes, condicionando o trabalho das redações e o jornalismo produzido.
A liberdade de imprensa encontra-se, em 2025, numa “situação difícil”, segundo o Índice da Liberdade de Imprensa Mundial, da Repórteres sem Fronteiras. É a primeira vez que tal acontece desde 2002, ano em que este índice começou a ser publicado, e, além das agressões físicas contra os jornalistas, este estado da liberdade de imprensa é provocado pela baixa, “sem precedentes”, do indicador económico deste índice.
A pressão económica, que se deve à “concentração da propriedade, pressão dos anunciantes e financiadores, e ajuda pública restrita, ausente ou atribuída de forma opaca”, tem afetado o as redações e dos jornalistas, condicionando a produção de jornalismo livre.
A liberdade de imprensa e o financiamento das redações são aspetos fundamentais à qualidade da informação jornalística. Sem liberdade, os jornalistas não conseguem produzir informação relevante e rigorosa, isenta de pressões externas – informação de confiança; e o seu papel de watchdog das instituições, fundamental ao funcionamento das democracias, fica comprometido (por exemplo, Moges, 2024). Se a liberdade de imprensa for condicionada, também a transparência, a diversidade de perspetivas e a objetividade (Jenkins & Nielsen, 2020), enquanto critérios de qualidade, deixam de ser garantidas.
Por outro lado, o financiamento é, também, essencial ao desempenho da produção jornalística de qualidade: só assim pode a redação existir e, além disso, ter jornalistas suficientes e disponíveis para levar a cabo funções como a investigação, o trabalho de campo ou a verificação de factos. Estes são critérios fundamentais para a qualidade do jornalismo (Barómetro para a Qualidade do Jornalismo, 2025) que implicam muito mais investimento de tempo e de dinheiro do que trabalhar apenas a partir da secretária. Por exemplo, os jornalistas portugueses entrevistados por Silva (2023) apontavam o tempo para trabalhar e as boas condições laborais como as duas condições essenciais para puderem produzir jornalismo de qualidade.
Referências
Barómetro para a Qualidade da Informação. (2025). Avaliar a qualidade da informação: Referencial teórico-metodológico. CECS.
Jenkins, J., & Nielsen, R. (2020). Proximity, public service, and popularity: A comparative
study of how local journalists view quality news. Journalism Studies, 21(2), 236–253. https://doi.org/10.1080/1461670X.2019.1636704
Moges, M. A. (2024). Freedom of the press, and journalism practices in times of uncertainty in the case of Ethiopia. Journalism Practice. https://doi.org/10.1080/17512786.2024.2410932
Silva, M. S. (2023). “Não tenho as condições”: Como os jornalistas de televisão e rádio avaliam a qualidade do jornalismo em Portugal. Comunicação e Sociedade, 44, e023020. https://doi.org/10.17231/comsoc.44(2023).4737
Fotografia: Joppe Spaa, na Unsplash