A predominância das redes sociais no acesso às notícias e a imparcialidade enquanto valor central do jornalismo: algumas conclusões do Digital News Report 2026
Nesta edição do relatório do Reuters Institute, fica patente que a confiança nas notícias nunca esteve tão baixa.
O ecossistema noticioso vive, atualmente, num paradoxo entre o comportamento e as atitudes dos públicos, segundo o Digital News Report 2026, do Reuters Institute, publicado neste mês de junho. Embora o consumo de notícias favoreça, cada vez mais, as redes sociais e canais de vídeo, existe, ao mesmo tempo, preocupação no que toca à confiança nas notícias, à desinformação e ao impacto que as plataformas têm.
Este paradoxo ocorre num momento em que o consumo de notícias nas plataformas é mais popular do que, por exemplo, através da televisão e dos sites e aplicações dos média – 12% dos respondentes referem, inclusive, que usam apenas as redes sociais para aceder a notícias; e 52% dos jovens entre os 18 e os 24 anos apontam que as redes sociais, as plataformas de vídeo e a IA são a sua principal forma de acesso às notícias, com 56% a referir que nunca leram um jornal regularmente. Percebeu-se, também, que o uso de Inteligência Artificial no contexto noticioso cresceu (de 7% em 2025, para 10% em 2026). Este crescimento é díspar entre países – embora o uso de IA tenha duplicado em países como Espanha e Coreia do Sul, não foi registado qualquer crescimento, por exemplo, nos EUA, em França ou na Alemanha.
De referir, ainda, que “quando estão online, as pessoas preferem, cada vez mais, ver as notícias em vez de as ler, recorrendo frequentemente a um leque mais alargado de fontes e opiniões”. O consumo de notícias em formato vídeo online reportou um crescimento significativo: em 45 dos 48 mercados analisados no Digital News Report 2026, mais pessoas usam esse formato do que veem notícias na televisão em canal aberto. Aqui, as exceções são a Alemanha, a Dinamarca e os Países Baixos. Além disso, este crescimento não significa que o consumo de notícias em vídeo acontece nos sites e aplicações dos média – pelo contrário, tem acontecido em plataformas de terceiros, com o consumo de vídeo diretamente nos média a decrescer cinco pontos percentuais (ainda de referir que, desde a pandemia de COVID-19, que a utilização das plataformas orientadas para vídeo tem crescido mais expressivamente do que as plataformas orientadas para texto).
Por outro lado, é relevante o consumo de algumas notícias através de criadores de conteúdos, sejam estes focados na produção de conteúdos noticiosos (27% dos respondentes deste relatório) ou criadores de conteúdos na generalidade (46%). Ainda assim, a procura destes conteúdos não substitui a procura de notícias através dos média tradicionais: não só aqueles que referem aceder a notícias produzidas por criadores de conteúdos apontam consumir mais notícias dos meios tradicionais do que a média, como apenas 3% dos respondentes referem confiar somente nos criadores de conteúdos enquanto fonte de notícias.
O interesse nas notícias tem vindo a decrescer desde 2021 com um quarto dos respondentes a referir consumir notícias apenas uma vez por semana e a apontar pouco ou nenhum interesse nas mesmas. A acrescentar a isto, a confiança nas notícias nunca esteve tão baixa (37%) desde que este indicador é medido pelo Digital News Report, embora a “confiança nas marcas de notícias individuais mais utilizadas esteja a manter-se melhor do que a confiança nas notícias em geral”. “Parte desta queda mundial na confiança reflete preocupações mais amplas que vão além do setor da informação – a confiança nas instituições e nos líderes está a diminuir de forma generalizada, e o jornalismo é também frequentemente alvo de ataques diretos por parte de políticos de destaque”. A confiança nas notícias está a ser impactada, também, pelo aumento da utilização das redes sociais e da IA no consumo de notícias, visto que estas fontes “há muito que não inspiram tanta confiança” quanto as tradicionais.
Esta edição de 2026 do Digital News Report aponta para a dificuldade dos média em gerar receitas através de sites e aplicações dada a redução do fluxo de pessoas que assina subscrições. O tipo de organizações que as pessoas escolhem apoiar está, também, a variar: o apoio financeiro a média não tradicionais, por exemplo, é significativo. Por fim, a imparcialidade continua a ser um valor jornalístico importante para as pessoas, com 45% dos respondentes a referirem que continuam a preferir notícias que não tomam partidos; e existe insatisfação na forma como os média tratam assuntos globais, como por exemplo a imigração.