Falta de confiança na diferença
A insularidade aponta para uma tendência de isolamento, que se reflete na dificuldade de aceitação de opiniões ou fontes de informação, por exemplo, diferentes daquelas com que nos identificamos.
O Edelman Trust Barometer aponta, em 2026, para uma crise de insularidade, isto é, “relutância em confiar em alguém diferente de nós” – 70% dos participantes apontaram que não se dispõem, ou hesitam, a confiar em alguém que:
– “Tem valores fundamentais diferentes dos seus;
– Acredita em factos diferentes e confia em fontes diferentes daquelas em que confia;
– Pretende abordar os problemas sociais de forma diferente da sua;
– Tem uma cultura, origem ou estilo de vida diferentes dos seus”.
Esta insularidade surge depois de, em 2025, o Edelman Trust Barometer ter identificado uma crise de ressentimento, que resultou na quebra de confiança em figuras tipicamente associadas a informação credível.
O relatório de 2026 deste barómetro, que mede a confiança nos negócios, nos governos, nos média e nas organizações não governamentais, aponta que “o receio de que atores estrangeiros divulguem desinformação para semear a divisão interna” está mais alto do que nunca. Além disso, a exposição a informação proveniente de fontes com ideologias políticas diferentes das próprias registou um declínio generalizado. O relatório refere, ainda, que a confiança, nos países em desenvolvimento está a aumentar, ao passo que, nos países desenvolvidos, se encontra em declínio.
A resposta a esta crise, segundo o Edelman Trust Barometer, passa pela “intermediação de confiança”, um conjunto de práticas que procura “facilitar a confiança através da diferença”. Este mecanismo, que “revela os interesses comuns de partes isoladas e traduz as suas necessidades, objetivos e realidades para que se compreendam mutuamente”, pode ser colocado em prática por uma pessoa, uma organização ou instituição. Assim, os participantes do estudo do Edelman Trust Barometer consideram, com percentagens acima dos 70%, que a intermediação de confiança pode ser auxiliada pelos média (atenuando tensões, através da dedicação de tempo e cobertura de diferentes pontos de vista, e de títulos rigorosos); pelos governos (criar o “tom” certo, evitando a retórica da culpa e da vilificação); e pelas organizações não governamentais (através da mediação entre grupos).
Os cientistas e os professores, apesar de um pequeno declínio em relação a 2025, continuam a apresentar os níveis de confiança mais elevados (76% e 73%, respetivamente), ao passo que os jornalistas são confiados apenas por 54% dos participantes. Já os os líderes governamentais apresentam falta de confiança, com uma percentagem de 49%.
É relevante, ainda, a falta de confiança (desconfiança) nos média em 13 dos 28 países considerados neste relatório, nomeadamente Itália, Alemanha, Suécia, Austrália, Colômbia, Argentina, EUA, Irlanda, Espanha, França, Coreia do Sul, Reino Unido e Japão. No que diz respeito aos governos, existe falta de confiança em 14 dos 28 países: Argentina, Quénia, Brasil, Irlanda, México, Alemanha, Itália, EUA, Japão, Reino Unido, Espanha, Colômbia, África do Sul e França.
Notas
– Este estudo conta com quase 34 mil participantes, de 28 países (cerca de 1200 participantes por país).
– A escala de confiança nos média, em percentagem, apresenta-se da seguinte forma no relatório: 1- 49% (desconfiança); 50-59% (neutro); 60-100% (confiança).